A reunião da Câmara de João Monlevade dessa quarta-feira (17) foi marcada por críticas ao presidente da Câmara, Fernando Linhares (Podemos). As discussões causaram momentos de tensão e ocuparam pelo menos metade do tempo da reunião.
A maioria dos vereadores criticou severamente a postura centralizadora de Linhares, o tom de suas falas e a falta de transparência e diálogo.
O vereador Zuza do Socorro (Avante) foi direto:
Você é estudado, você é polícia, mas você é polícia lá na delegacia, aqui é só vereador. Se tivesse reunido com a turma e explicado, tenho certeza que não dava essa discussão.
Já o vereador Sinval da Luzitana (PL) declarou que, se a permanência de Fernando Linhares na presidência dependesse do apoio dos vereadores, ele não teria os votos necessários para conseguir se manter no cargo.
Como começou as críticas?
Tudo começou quando o vereador Vanderlei Miranda (Podemos) disse ter sido procurado pela população sobre um concurso público, mas que não sabia o que responder por não ter recebido informações da presidência. Ele defendeu que temas que mexem com a estrutura da Câmara devem ser construídos coletivamente. "Eu acho que nada é a toque de caixa, nada que começa goela abaixo", declarou Vanderlei, destacando que faltou diálogo.
Em seguida, Fernando Linhares anunciou a realização do concurso público. Ao explicar sobre isso, ele afirmou que vereadores com muitos mandatos já deveriam ter a obrigação de entender o assunto e não manifestar tantas dúvidas.
Além disso, ao mencionar que houve uma "quebra de fidúcia" em um contrato com a Câmara, o presidente disparou: "(…) quem não sabe o que é quebra de fidúcia sugiro perguntar o Google para poder entender o que é". Linhares também disse que os vereadores talvez não saibam, por falta de curiosidade, que existiam-se vários cargos em vacância na Casa.
Essas falas foram interpretadas de forma negativa. Alguns vereadores expressaram indignação por terem tomado conhecimento do concurso por meio de rumores de corredor, classificando a situação como uma falta de respeito com o Legislativo.
Vereadores se posicionam
O vereador Alysson Enfermeiro (Avante) afirmou ter se sentido ofendido e "rebaixado", ressaltando que, embora tenha curso superior, nem todos os vereadores dominam termos jurídicos.
Eu acho que faltou de verdade um pouquinho de humildade e respeito da vossa excelência
Sidney Bernabé (PL) disse que o presidente criou um ambiente de desarmonia e que os vereadores tem que legislar para a cidade, em vez de deixar uma "marca" individual para a cidade.
Ainda em sua fala, Sidney declarou que a Câmara não precisa de concurso ou novos funcionários, defendendo que a tendência atual deve ser enxugar a máquina pública. Sidney questionou especificamente a criação de vagas para motoristas, e também alegou que os vereadores já possuem muitos privilégios.
O vereador Carlinhos Bicalho (PP) comentou sobre um episódio em que o presidente o ligou para criticar o trabalho de seu gabinete por ele ter utilizado o sistema oficial para solicitar um veículo, o que evidenciaria a falta de comunicação direta e amigável na casa. O vereador afirmou que, ao seguir os trâmites burocráticos e administrativos implantados na Câmara, ele esperava uma resposta formal via sistema, e não uma ligação de cobrança.
Marquinho Dornelas (Republicanos) manifestou que ficou "chateado" e "ofendido", ressaltando que o projeto do concurso não foi construído coletivamente com os parlamentares ou servidores.
Leles Pontes (Republicanos) reforçou que o diálogo é essencial entre os 15 vereadores e que a falta de comunicação deixou os parlamentares em dúvida diante das perguntas da população.
Por sua vez, Thiago Titó (MDB) sugeriu que Linhares visse o ocorrido como uma oportunidade de reflexão sobre tudo o que foi dito na tribuna, visando evitar que reuniões futuras ocorressem em um clima de "desarmonia".
Os vereadores Bruno Cabeção (Avante), Revetrie Teixeira (MDB) e Sassá Misericórdia (MDB) não tocaram no assunto e dedicaram seus tempos de fala a outras pautas. Belmar Diniz (PT) não esteve presente na reunião.
Por fim, Maria do Sagrado (PT) disse que considerou muito necessário o pedido de desculpas do presidente.
Defesa do presidente da Câmara
Fernando Linhares defendeu-se afirmando que o concurso é um ato administrativo, não político, e que é uma obrigação para regularizar a situação de alguns cargos.
Ele pediu desculpas em vários momentos da reunião aos que se sentiram ofendidos, justificando que sua fala foi uma "explanação" técnica e que ele é um homem "muito prático" e austero em sua gestão.
Ao final da reunião, Linhares mudou o tom, adotando uma postura mais conciliadora e reflexiva. Ele admitiu que sua intenção não foi desmerecer ou ofender os colegas e que o pedido de desculpas era para qualquer um que tivesse se sentido "desprestigiado".
Nós somos seres humanos. A gente espera mais acertar do que errar. É um grande desafio estar aqui hoje.
