A jornada de turno fixo implantada na usina da ArcelorMittal de João Monlevade pode causar impactos como riscos à saúde e ao convívio familiar e social dos funcionários, segundo relatos de trabalhadores e evidências técnicas. Os argumentos foram apresentados durante audiência pública na Câmara Municipal de João Monlevade na última segunda-feira (27).
O presidente do Sindmon-Metal, Flávio de Paiva, avalia que a implantação do turno fixo na ArcelorMittal é uma jornada desgastante e desumana. Segundo ele, a jornada de trabalho implantada em março impacta diretamente 684 trabalhadores e suas famílias. A escala em vigor atualmente é a 6x3x3, ou seja, são três turnos fixos: das 07h às 15h, das 15h às 23h e das 23h às 07h.

Relatos sobre impactos na saúde
O ex-funcionário da usina, Stenio Carvalho, defendeu a jornada de 12 horas no sistema 4x4 como a mais equilibrada. Segundo ele, após vivenciar modelos como a tabela francesa, a escala 6x3x3 e o turno fixo, ficou evidente que a jornada 6x3x3 é extremamente desgastante e prejudica o convívio familiar.
Stenio também afirmou que o sistema 4x4 sugerido pelo sindicato melhora a qualidade de vida, reduz o cansaço físico e mental, diminui o absenteísmo e contribui para maior estabilidade operacional da empresa. Ele ainda relatou que o turno fixo proporciona apenas de três a quatro finais de semana completos por ano, enquanto a escala 12x4x4 garante cerca de 22 finais de semana livres.
O professor Leonardo Reis, da Unifei de Itabira e especialista em engenharia de saúde e segurança, apresentou uma análise técnica sobre os impactos dos turnos fixos e noturnos. De acordo com ele, estudos científicos apontam aumento da pressão arterial, hipertensão, acidentes de trabalho, insônia, desgaste emocional e dificuldades no convívio familiar, especialmente entre mulheres.

Já o vice-presidente da CUT Vale do Aço e presidente interino do Conselho Municipal de Saúde, Guilherme, falou da preocupação com o aumento de doenças físicas e psicossociais, o que pode sobrecarregar ainda mais o Hospital Margarida e toda a rede pública de saúde da cidade. Guilherme ressaltou que o sindicato recebe constantemente trabalhadores adoecidos emocionalmente e que muitas vezes o município não possui estrutura suficiente para oferecer atendimento especializado.
A presidente do Sintramon, Letícia, compartilhou sua vivência de nove anos atuando em escala noturna fixa no pronto atendimento do município. Ela relatou os prejuízos físicos, emocionais e sociais dessa rotina, destacando que o trabalhador precisa de tempo para descanso, lazer, família e autocuidado.

O presidente do PT, Lucas Bicalho, falou sobre o aumento dos casos de burnout e adoecimento mental no ambiente de trabalho. Ele sugeriu que a Câmara elabore uma moção de apoio às reivindicações do sindicato e também ao debate nacional sobre o fim da escala 6x1.
Escala 4x4 é adotada pela ArcelorMittal em outras cidades
Flávio Paiva afirmou que o sindicato defende a jornada de 12 horas no sistema 4x4, proposta já usada em outras unidades da ArcelorMittal, como a de Tubarão (ES) e ArcelorMittal Pecém (CE). Para ele, esta jornada é considerada mais favorável ao convívio familiar e à saúde física e mental.
Desta forma, a ArcelorMittal rejeita a escala de trabalho 4x4 em João Monlevade, mas já utiliza essa jornada de trabalho em outras unidades da empresa.
Na audiência, Flávio apresentou dois vídeos, sendo um um deles publicado pela própria ArcelorMittal, em 2023, onde é retratado os benefícios do turno de 12 horas 4x4, tanto para os trabalhadores quanto para a empresa. Assista:
Vale ressaltar que tanto vereadores quanto representantes sindicais reforçaram que o objetivo da audiência não foi ir contra a empresa, mas sim buscar o diálogo e uma solução negociada que preserve a saúde dos trabalhadores e a estabilidade operacional da usina.
ArcelorMittal não comparece à audiência
A ArcelorMittal não compareceu à audiência pública na última segunda e justificou sua ausência. A empresa informou que a jornada de trabalho está sendo tratada internamente junto com os empregados e o sindicato, por se tratar de uma questão de gestão interna.
A empresa também destacou que o setor siderúrgico enfrenta um cenário desafiador, com queda na produção, redução das margens de venda e forte concorrência do aço importado, o que inviabilizaria, neste momento, a proposta apresentada pelo sindicato.
Após ausência na audiência pública, a ArcelorMittal solicitou uma nova reunião com Sindmon-Metal para discutir turno de revezamento. O encontro entre representantes da empresa e do sindicato foi agendado para o dia 7 de maio.

