Além da farda: conheça as quatro bombeiras que atuam em João Monlevade

Uma mãe e motorista de caminhão de incêndio, uma técnica de saúde que cuida dos colegas, uma jovem que já vivenciou resgates delicados e uma militar que desafia preconceitos com competência técnica; veja quem são elas

Atualizado em 07/03/2026 às 20:03, por Kinderlly Brandão.

Conheça as quatro bombeiras militares que atuam em João Monlevade

Foto: Kinderlly Brandão ©

O Corpo de Bombeiros Militar de João Monlevade, inaugurado há quase dois anos, conta atualmente com quatro bombeiras. 

Ana Melo, Letícia Rodrigues, Geisla Caldeira e Ana Luiza Martins transbordam competência profissional. Elas desempenham diversas atividades, que vão além do atendimento a ocorrências de resgate e salvamento.

Cabo Ana Melo, Cabo Geisla e soldado Letícia. Foto: Kinderlly Brandão ©

Conheça um pouco sobre a história das bombeiras e descubra o que as motiva para além da farda:

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Cabo Ana Melo

A cabo Ana Melo tem 32 anos, e é natural de Rio Piracicaba, onde reside com o marido e o filho. Embora tenha nascido na cidade vizinha, morou a vida quase toda em João Monlevade. Descreve-se como uma pessoa muito caseira, e possui uma grande paixão por fotografia.

Em relação à profissão, Ana é experiente: tem 12 anos de carreira militar. Já fez parte do Corpo de Bombeiros de Itabira e de São Gonçalo do Rio Abaixo. Destaca-se por ser a única bombeira de Monlevade habilitada na categoria "D", sendo apta a conduzir viaturas de grande porte, como o caminhão auto bomba, de combate a incêndios. 

Foto: Kinderlly Brandão ©

Também coordena o projeto social Bombeiro Mirim, e pretende ter sucesso nas atividades que estão beneficiando 40 crianças em Monlevade. Ao longo do projeto, os participantes aprendem sobre primeiros socorros, noções de prevenção de incêndios, cidadania e outros temas. 

Ana já foi voluntária do Serviço Voluntário de Resgate (Sevor), quando deu seus primeiros passos rumo à carreira de bombeira militar. Na época, sua avó Ana Emerenciana Mello ficou muito orgulhosa quando a viu passar no concurso e fazer parte da corporação.

A bombeira também é mãe do pequeno José, de 2 anos. Para ela, conciliar a profissão com a maternidade traz um grande senso de responsabilidade, não só consigo mesma, mas também com os colegas de equipe e com o próximo. “É uma profissão que gera empatia com o próximo, mas a maternidade gera ainda mais. Eu faço pensando o que eu gostaria que o outro fizesse com o meu filho”, explica. 

Cabo Ana Melo e o filho José. Foto: reprodução/arquivo pessoal

Após se tornar mãe, Ana foi transferida de São Gonçalo para João Monlevade. Quem a apoiou nos cuidados com José foi sua mãe, Ana Maria de Mello, que sempre foi sua maior inspiração: “Foi uma mulher batalhadora, guerreira, e muito forte, e me criou para ser quem hoje sou". 

O apoio familiar continua sendo essencial para a rotina longe da farda. A bombeira valoriza o convívio com aqueles que ama e, após um dia de trabalho intenso, o que a deixa feliz é voltar para casa e estar junto com a família.

Foto: Kinderlly Brandão ©

Soldado Letícia

Natural de Belo Horizonte, a soldado Letícia Rodrigues tem pouco mais de 2 anos de atuação como bombeira. Aos 22 anos, é a caçula da corporação em João Monlevade, mas já vivenciou momentos marcantes na profissão. Também é apaixonada por crianças e atua dando apoio ao projeto Bombeiro Mirim.

Para ingressar no Corpo de Bombeiros, ela precisou passar pelo curso de formação, descrito como extremamente intenso e exaustivo. O curso envolve testes diários que levam os alunos ao limite para construir as habilidades necessárias para a profissão. E o controle emocional é uma delas. 

Foto: Kinderlly Brandão ©

Letícia relata uma ocorrência de atropelamento fatal que a marcou profundamente, ocorrida ainda durante seu estágio, antes de ser designada para João Monlevade. 

A história envolve um jovem que havia acabado de completar 15 anos. Ele era do interior e estava em Belo Horizonte visitando a casa da avó. Em uma sexta-feira, o menino havia ganhado sua primeira bicicleta de presente do pai. Ao pedalar por BH, ele não percebeu que um ônibus faria uma conversão e acabou colidindo com a lateral do veículo, caindo sob as rodas. O motorista do ônibus não viu o menino e acabou passando por cima de sua cabeça. O adolescente foi a óbito no local. 

Letícia conta que, devido à sua estatura pequena, foi a militar escolhida para entrar debaixo do ônibus e usar uma almofada pneumática para a remoção do corpo. Para isso, precisou se deitar ao lado do jovem e ajeitar o equipamento. 

Na ocasião, ela sentiu o impacto de ver alguém tão jovem em uma situação trágica. A bombeira se lembra da vítima, que estava com a cabeça deformada. “Depois a gente retirou o menino, aquela situação bem assim... difícil, né? Na hora a gente é um pouco fria nas coisas”, conta. 

Letícia explica que, embora a cena tenha sido muito difícil e ela tenha voltado para casa com aquela imagem na mente, os militares são forjados durante o curso de formação para manter a frieza e o profissionalismo. Esse treinamento é o que lhes dá capacidade de, por exemplo, manter a postura ao confirmar para a mãe desesperada que o filho dela faleceu.

Soldado Letícia sendo suspensa pelas colegas. Foto: Kinderlly Brandão ©

Desde cedo, Letícia sempre quis ser militar. No ensino médio, fase importante para a escolha da profissão, ela conta ter pedido a Deus para que mostrasse o caminho que deveria seguir, o que a levou a escolher o Corpo de Bombeiros. Hoje, ela já pensa na possibilidade de progredir na carreira militar. 

Para além da postura exigida pela profissão, Letícia tem planos e projetos pessoais guiados pelo afeto. A bombeira deseja concluir a faculdade de matemática e, futuramente, se casar e constituir família. 

Cabo Geisla

A cabo Geisla Caldeira é natural de João Monlevade. Possui 13 anos de experiência no Corpo de Bombeiros, instituição pela qual nutre profunda admiração. Com a chegada da corporação em Monlevade, ela agora se sente em casa, após atuar por um longo período no pelotão em Itabira.

Geisla é do quadro de especialistas da área da saúde, técnico em enfermagem. Diferentemente das demais bombeiras, ela completa um time de profissionais que trabalham na Seção de Atenção à Saúde (SAS), no quartel da 17ª Companhia de Polícia Militar Independente. 

Geisla usa em seu dia a dia uniforme branco específico da área da saúde. Foto: Kinderlly Brandão ©

Desde a reativação da Seção de Atenção à Saúde da Polícia Militar de João Monlevade, Geisla atua juntamente com uma equipe especializada na promoção à saúde e na prevenção de doenças da família militar. É um trabalho interno, essencial para manter as tropas aptas para servir, proteger e salvar a população.

Ela descreve o que sente pela profissão: “É apaixonante. É muito bom servir, proteger e salvar vidas”. 

Foto: Kinderlly Brandão ©

Geisla projeta sua progressão de carreira realizando um concurso interno na corporação. É apaixonada pela farda, mas nas horas de lazer, gosta de relaxar na natureza: se sente feliz ao fazer trilhas e visitar cachoeiras. 

Soldado Ana Luiza

Aos 23 anos, ela reside em Santa Luzia, na Grande BH, para permanecer perto da família. Ana Luiza Martins desloca-se até João Monlevade para trabalhar como bombeira militar há mais de um ano, e participa diretamente do atendimento às ocorrências. 

Foto: Kinderlly Brandão ©

Ela é enfática ao relatar que enfrenta barreiras de gênero relacionadas à profissão de bombeira militar. "Já presenciei situações desagradáveis de, por exemplo, escutar que eu não ia dar conta, porque eu era mulher, e que eu não tinha que atender tal ocorrência, porque era mulher", conta.

O cenário descrito por Ana reflete as estatísticas da corporação: mulheres representam uma pequena parcela do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG), com estimativas indicando cerca de 9% a 10% do efetivo total. 

Vale ressaltar que a coronel Jordana de Oliveira assumiu o comando geral do CBMMG em 2025, tornando-se a primeira mulher a liderar a corporação em 113 anos de história.

A escolha de Ana Luiza pela carreira militar foi influenciada por seus dois irmãos mais velhos, que são policiais militares. Como planos futuros, ela pretende progredir na carreira militar, buscando crescimento financeiro. 

Foto: Kinderlly Brandão ©

Ana Luiza também é responsável pela gestão das redes sociais do Posto Avançado de Monlevade, uma atividade que busca aproximar os bombeiros da comunidade. Destaca-se pela sua proatividade e dedicação.

No âmbito pessoal, tem o desejo de ser mãe e formar família, embora reconheça os desafios de conciliar a maternidade com a escala operacional de 24 horas.

A bombeira também pratica diversas atividades físicas: adora pilates, que considera quase como uma terapia, além de praticar corrida e caminhada, jogar vôlei e treinar o físico na academia. Para ela, manter o bom condicionamento é também uma forma de reafirmar sua capacidade técnica diante dos desafios da carreira.


A presença das mulheres no Corpo de Bombeiros de João Monlevade supera a mera ocupação de vagas.

As quatro militares demonstram que a diversidade de perfis é um recurso operacional valioso. O compromisso destas profissionais, forjado no rigor militar e lapidado pela resiliência pessoal, assegura à população de João Monlevade um serviço de excelência, técnica e empatia.


Kinderlly Brandão

Jornalista na Rádio Alternativa 91.1 FM. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Também trabalhei na redação do Portal Mais Minas e Jornal de Brasília. Natural de São Domingos do Prata.